Como Escrever um Livro

Entrevista com a autora Lavínia Rocha – Matéria Especial



Lavínia Rocha é uma autora de Belo Horizonte (MG). Apaixonada pela literatura desde cedo, e amante de escritores como Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Carolina Maria de Jesus. Publicou seu primeiro livro, Um Amor em Barcelona, aos 13 anos de forma independente com a ajuda dos pais. Porém, ela não parou por aí, aquele era apenas o ponta pé inicial para a autora escrever mais. Alguns anos depois, Lavínia lançou seu segundo livro, De Olhos Fechados, desta vez, por uma editora, a D’Placido. Livro que trouxe um assunto complexo e muito interessante, a perda da visão. Recentemente, Lavínia lançou o desfecho da sua trilogia, Entre 3 Mundos.


Nós do Portal Palas, tivemos a oportunidade de entrevista-la. Simpática como sempre, Lavínia nos concedeu uma descontraída conversa – Confira!

Luan: Primeiramente, gostaria de lhe agradecer por ter aceitado esse convite. Eu lembro que você nos deu outra entrevista no passado, e mostrou grande animação. Além de ter nos apoiado bastante na época, então muito obrigado por ter aceitado novamente o convite. Quando pensamos em criar esta área no Portal para matérias especiais e resolvemos trazer uma entrevista, nós pensamos, “precisamos trazer a Lavínia, não apenas por ela ser autora, mas também pelo fato de ter sido uma das pessoas mais importantes no nosso projeto anterior”. Além é calo, também somos apaixonados por literatura, (risos).

Lavínia: Nossa, que honra enorme fazer parte disso. Obrigada pelo carinho, fico imensamente feliz e admiro demais o trabalho de vocês!

Luan: Eu quero inicialmente, entrar na parte do seu processo criativo, do início até o livro criado. O que vem primeiro, os personagens ou a idéia?

Lavínia: A idéia vem primeiro, mas de forma bem embrionária. Começo a pensar em algumas questões do enredo, o que vai ser o tema principal e, depois de já ter algo, os personagens vão se desenhando na minha mente.

Luan: Eu diria que existem muitas formas de criar um personagem, algumas vezes eles nem são criados, eles simplesmente aparecem, e quando olhamos, eles estão ali te encarando. Mas como funciona a criação dos seus personagens? Onde e como você se inspira para dar vida a eles? Você possui alguma ficha deles?

Lavínia: Isso acontece mesmo! Às vezes tenho a impressão de que não estou criando nada, apenas colocando no papel alguém que já existe (risos). Não faço fichas, eles vão se desenhando para mim na medida em que vou escrevendo a história, então as manias, as qualidades e os defeitos vão surgindo aos poucos.

Entre 3 Segredos, segundo livro da trilogia Entre 3 Mundos. Na capa é possível ver Alisa, personagem sitada por Lavínia na próxima resposta


Luan: Algum personagem já foi inspirado em você mesma de alguma forma?

Lavínia: Todas as protagonistas acabam carregando um pouquinho de mim, não tem jeito. Por mais que no início eu tentasse me isentar, acho que é impossível. Mas a que eu mais vejo semelhanças comigo é a Alisa, da trilogia Entre 3 Mundos.

Luan: Essa pergunta pode parecer um pouco estranha. Mas dentre todos os seus personagens, independente do livro, qual você gostaria de ter a oportunidade de conversar cara a cara? E por qual razão você o escolheria? Sobre o que gostaria de conversar com ele(a)?

Lavínia: Gostaria de conversar com a Nina, também da trilogia Entre 3 Mundos. É uma das minhas personagens favoritas! Acho que ela é muito sábia e muito preocupada com questões sociais. Imagino que daríamos certo!

Luan: Você é uma autora bem diversa, já escreveu desde Romance a Fantasia, como surgem as idéias para a trama?

Lavínia: Tudo depende das influências do momento. Comecei escrevendo romance porque era o único gênero que eu lia, depois fui parar em mistério e aventura com a série “A Droga da Obediência”, do Pedro Bandeira, e na fantasia urbana com “Poderosa”, do Sérgio Klein. A diversificação das minhas leituras abriram portas para que eu entrasse em outros universos na escrita também.

Luan: Qual a maior dificuldade para desenrolar a idéia da trama?

Lavínia: Tem hora que é difícil colocar no papel algo que parece fantástico na sua cabeça. A idéia vem, você se empolga e acha que vai acrescentar muito, mas, ao colocar em prática, percebe que daquele jeito não funciona e precisa repensar tudo…

     
     
Luan: Há algum tempo atrás, você escreveu ao lado de duas outras autoras, como é dividir idéias e personagens?

Lavínia: Amores Improváveis me deu uma oportunidade maravilhosa de trabalhar em equipe! Foram sete autores escrevendo no mesmo cenário, mas minha personagem estava mais ligada aos personagens da Adelina Barbosa e da Fernanda Medeiros, então tínhamos que conversar muito e esquematizar os rumos da história para fechar direitinho. Foi bom porque compartilhamos idéias, influenciamos no enredo uma da outra… foi fantástico!

Luan: Eu percebi que em um de seus livros, você tratou a questão da Deficiência Visual. Como foi o seu processo de entendimento do assunto? Qual foi o maior desafio? Havia alguém com deficiência próxima a você?

Lavínia: Foi um processo de muita pesquisa e aprendizado! Corri atrás de blogs pessoais, sites governamentais, filmes, vídeos… tudo o que havia ao meu alcance. Também pude contar com a amiga do meu pai, que me deu algumas dicas. O maior desafio foi pensar fora da caixa a qual estava acostumada, o que acabou influenciando minha vida e meus livros seguintes.

Luan: Você começou a escrever muito nova. Você teve a oportunidade de criar aventuras através dos olhos de uma criança e agora de uma pessoa mais madura. Você costuma revisitar esse seu passado? Como é olhar para a pequena Lavínia?

Lavínia: Sempre digo que é como encontrar um diário antigo e rever como costumava enxergar o mundo. Tem hora que dou risadas, fico reflexiva e satisfeita por pensar diferente e ter me libertado de alguns padrões sociais. No geral gosto de ver que estou em constante evolução. Ruim seria ler meus primeiros livros e não perceber mudanças.

Conceição Evaristo

Luan: Qual foi a maior dificuldade que você passou nessa trajetória como escritora?

Lavínia: As dificuldades vêm aos montes e tenho a sensação de que nunca deixarão de existir. Dois momentos me marcaram muito; o primeiro foi quando não conseguia encontrar uma editora tradicional para De Olhos Fechados e não tinha dinheiro para publicá-lo de forma independente, como meus pais fizeram com Um Amor em Barcelona. Neste momento tive uma sensação de que talvez tivesse que desistir.
O segundo foi quando Conceição Evaristo recebeu um único voto para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, criada por Machado de Assis e majoritariamente ocupada por homens brancos (poucos são os homens negros e as mulheres brancas). Mulher negra mesmo, nunca houve, Evaristo seria a primeira. Mas, quando ela recebeu apenas um voto, eu chorei como se estivesse acontecendo comigo. Admiro muito o trabalho da escritora e toda sua história de vida e fiquei me perguntando se Conceição Evaristo, sendo brilhante como é, não conseguiu reconhecimento, o que eu estou fazendo lutando por uma literatura menos racista e machista? Me deu uma sensação de impotência de que as coisas nunca iriam mudar, mas me cerquei de pessoas que me fortalecem e me instigam a continuar lutando.

Luan: Quais são os planos para o futuro? Tem novidade vindo aí?

Lavínia: Agora que lancei Entre 3 Razões, estou começando a planeja novos projetos, mas ainda não tenho certeza do que vai ser.

Luan: Como você vê o cenário literário hoje? Há espaço para novos autores?

Lavínia: O mercado literário está em crise e eu não sei qual caminho seguirá, mas hoje há uma abertura para novos autores nacionais muito maior do que dez anos atrás, por exemplo. Costumo ser muito positiva.

Luan: Eu lembro que em outra oportunidade, eu te fiz essa pergunta, e acredito que sempre que você nos der a oportunidade de entrevistá-la, eu a repetirei (risos). Hoje, você está entre três o que? E por quê?

Lavínia: Entre três lutas. Levanto muito a bandeira de causas sociais, como o feminismo e o movimento negro, e tenho essas lutas como guias da minha vida. Outra luta minha é pela literatura, para que se torne acessível e para que seja diversa, com representatividade. E a terceira é a luta pela educação; faço licenciatura em História, e vejo na educação, o único caminho possível para qualquer mudança no país. 

Luan: Gostaria de deixar algum conselho para quem está começando como autor(a)?

Lavínia: Não desista! Vão aparecer dificuldades, te garanto, mas foque no seu sonho e no lugar em que deseja chegar. Se esforce também para não se boicotar, ninguém nasce sabendo e não precisa criar uma obra prima de primeira, estude sobre escrita, pratique e busque melhorar sempre, mas não se cobre demais.

Luan: Quero uma dica sua agora. Qual autor(a), próximo a você, gostaria de indicar para também vir trocar uma idéia aqui no Palas? Acha que a pessoa aceitaria?

Lavínia: Posso indicar quatro (risos)? Indico a Lorrane Fortunato, Solaine Chioro, Olívia Pilar e Iris Figueiredo, que são autoras incríveis e minhas amigas pessoais. Elas estão sempre lutando para que o meio literário seja um universo mais aberto e consciente e tenho certeza de que topariam.

Luan: Muito obrigado por ter aceitado o convite, sempre é um prazer conversar com você, espero que possamos “trabalhar” juntos novamente, e se sinta à-vontade para voltar!

Lavínia: Eu que agradeço! Obrigada pelo carinho de sempre e desejo todo sucesso do mundo a vocês!

E aí? Gostaram da entrevista? Já conheciam a Lavínia? Deixe a sua opinião nos comentários!

Entrevista com: Lavínia Rocha
Matéria Produzida Por: Luan Souza
Revisão Por: Marlon Moura 




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